Lá se foi o O’Neill

diario-popular«O’Neill, Alexandre / Moreno, português / Cabelo asa de corvo / Nariguete que sobrepuja de través.»

Assim mesmo. O retrato em catorze versos, sonetaço por inteiro, que dele próprio fez. Não cansou de biografar-se, o O’Neill («Bebe de mais/Sofre de ternura»), não cansou de reinar com as palavras, de bicicletá-las, de as remanejar, de as remanchar, de as possuir com a truculência e a ingenuidade de um noivo. Alexandre O’Neill. 61 anos. «Estou a morrer devagarinho, eu, que sempre fiz as coisas tão depressa.» E riu-se. Riu-se, não: casquinou, a sua maneira superior de protestar, ou de gozar a vida.

O coração ia-lhe de alto: pulsava, pulsava, até que estoirou. Andava sempre em acto de amor: amor pelas mulheres, pelo vinho tinto, pelos amigos, pelas ruas, pela claridade. Pelas palavras. Pelo segredo que as palavras contêm, lá dentro, no bojo. E delas se servia para ironizar, para ser sarcasta, para demolir. E delas se servia, amiúde, para se esconder, para se desfazer e para se refazer. «O surrealismo está gloriosamente empalhado» (disse, numa entrevista concedida ao semanário «O Ponto»). E acrescentou: «Até já há teses universitárias sobre o surrealismo! Quando há tese, há cadáver.»

Lia, devorava tudo com atenções minuciosas. Indicava aos amigos mais íntimos este autor, aquele livro, este filme, aquele pintor. Revolvia o passado, não para exumar gloriosos defuntos, sim para recuperar gloriosos ignorados. Dizia: «O Guilherme de Azevedo foi muito maior cronista do que o Fialho.» Dizia: «O Cesário é muito maior poeta do que o Pessoa. O Pessoa é um chato, nem sequer sabia que a alface se deve comer com coentros.» Dizia: «O maior escritor da geração perdida foi o Thomas Wolff, nunca traduzido em português.» Dizia: «O Benito Perez Galdós foi o maior escritor da Península Ibérica, no século XIX, depois do Camilo.» Camilo Castelo Branco, a sua paixão permanentemente rejuvenescida. Andava pelos alfarrabistas, compulsava edições antigas com edições modernas. Dizia: «O maior poeta português vivo é o Cesariny.» Opinião por muitos partilhada, aliás, o que eu não gostava de reconhecer. «Mas o Cesariny nunca foi surrealista: foi sempre só-realista.» Voltava a rir, a casquinar. Voltava a esconder a face aberta, a ternura, a emoção, a paixão. «Sou autodidacta e técnico de publicidade. E desarrinquei alguns estribilhos notáveis: “Há mar e mar, há ir e voltar”, “Com Lusospuma não se dá só uma”, mas esta não foi aproveitada.» Logo o riso escancarado, a traquinice à solta, a bizarria na frase, o olho vivíssimo. Descobria autores como descobria ruas, becos, travessas. Sentava-se em bancos de jardim e gostava de passear aos domingos. Escreveu em quase tudo o que foi jornal e revista. Aqui, no «DP», assinou, durante semanas, uma crónica luminosa de alegria e de alumbramento. Isso mesmo: alumbramento pelas coisas. Fumava e bebia com imoderação. Quando teve advertências miocárdias, deixou de beber, deixou de fumar. «Estou a deixar de viver.» Sabia como estava e sabia o caminho que a doença iria tomar. Há quem tome precauções. Há quem tome conhaque. O O’Neill não tomou precauções, nem tomou conhaque. Tinha de trabalhar muito e muito, dividido entre dois empregos que lhe rasuravam o espírito mas lhe arredondavam a conta no final dos meses. e escrevia, sempre e sempre: poesia, epistolografia, outra vez poesia. Um amigo dele dizia a um de nós: «O Alexandre está a desistir. A vela está a apagar-se.»

Lentamente, muito lentamente, Alexandre O’Neill, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, um dos maiores poetas da Literatura portuguesa, foi embora. Vai juntar-se ao Breton, ao Vinicius, ao Bocage, ao Abade de Jazente, ao Tolentino, ao Cesário. Vai estar à ilharga do Camões. Uma constelação imparável. Brilhantes como mil sóis. Lá se foi o O’Neill. Mas volta sempre, enquanto neste país houver um leitor de poesia.

  • Baptista-Bastos, “Lá se foi o O’Neill”, Diário Popular, Lisboa, 22 agosto 1986, p. 27
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