Lembrança do Alexandre O’Neill

Gosto de me lembrar do Alexandre O’Neill e da cumplicidade que estabelecemos. Também gosto de dizer que ambos nos congratulámos com as revelações que tivemos do Alexandre Eulálio, um escritor brasileiro que viveu aqui em Lisboa, nomeadamente dessa descoberta que foi a obra do Jorge Luis Borges.

Uma vez eu perguntei-lhe qual seria a razão do nosso bom entendimento. O Alexandre respondeu imediatamente: “A gente dá-se bem porque não se leva a sério!”

Esta resposta do Alexandre fez com que eu a lembrasse muito ao longo da minha vida. Hoje, penso que a atitude mais séria está nisso de não cair na tentação de me levar a sério e ser um senhor sisudo.

Na sua relação com o mundo, nomeadamente com a escrita, o humor estava-lhe sempre presente. As suas histórias deviam ser contadas como a sua obra poética pois são um elemento valioso na sua criação.

Os meus amigos eram todos ateus. Eu era um crente rodeado de ateus.Uma vez, ele vinha de táxi com o José Cutileiro e eu saía de casa. Dissemos adeus uns aos outros e o Alexandre disse para o José Cutileiro: “O António ficou a pensar: ‘Lá vão aqueles para o ateísmo’.”

O Guilherme Castilho era muito magro e foi nomeado Embaixador no Chile. O Alexandre disse-lhe: “Ó Guilherme, que ideia foi essa de o nomearem para o Chile. É por você caber no Chile?”

O José Cutileiro tinha bons versos. Uma vez, ia a dizer-nos um soneto que começava assim: “De si me sirvo amor como de tudo.” Aí, o Alexandre  interrompeu-o e disse-lhe: “Falta aí uma vírgula. De si me sirvo, amor, vírgula, como de tudo.”

Quando foi o 11 de Março em que os revolucionários resolveram nacionalizar toda a nossa economia, houve um que desabafou ao Alexandre: “Então, agora, a iniciativa privada?!” O Alexandre respondeu imediatamente: “Privada de iniciativa.”

Esta facilidade de usar a linguagem era qualquer coisa que transbordava da sua poesia para a vida quotidiana. Uma vez um poeta dizia-lhe um verso seu e, a certa altura, vinha uma frase: “A rota, a traça.” O Alexandre interrompeu-o: “Isso de arrotar a própria traça não será fome a mais?”

Um dia estávamos os dois na Brasileira do Chiado quando nos surgiu um pintor que andava muito metido na política e que, com ar sisudo, nos mostrou um texto para a gente assinar. O Alexandre leu e disse: “Eu não assino isto.” O pintor pôs o seu ar superior e acusou-o: “O’Neill, você sabe muito de poesia, mas de política você não sabe nada.” O Alexandre diz-lhe imediatamente: “Tem razão. Você sabe muito de política, de pintura é que você não sabe nada.”

Ele trabalhava também em publicidade e eram impressionantes os achados que ele encontrava. Para a posteridade ficou aquela frase que ele escreveu para chamar a atenção aos banhistas: “Há mar e mar, há ir e voltar.” Para esta campanha ele tinha uma frase de que eu ainda gosto mais: “Passe um Verão desafogado.”

Esta capacidade de nos surpreender com a palavra vivia com ele, que, muito naturalmente, fazia da própria conversa uma fonte de achados linguísticos.

Também foi ele quem me chamou a atenção para o livro do Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão, que me revelou um escritor que acompanhei depois, ainda antes de ser consagrado pelo público e pelo Prémio Nobel de Literatura. O Alexandre, à mesa de um café, era um espanto. Era um prazer acompanhá-lo e ouvir a sua conversa que lhe saía naturalmente de forma lapidar mas com o humor sempre presente.

 

* António Alçada Baptista, “Lembrança do Alexandre O’Neill”, in “O Tempo nas Palavras”, crónica na Revista Máxima, Julho 2005.

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