E a minha festa de homenagem?

Furioso dou uma dentada no relvado simbólico onde homenagem a capitaljogo as palavras. Para quando a minha festa de homenagem? Já começaram a preparar o recinto? Acham que alguma vez pena e biqueira se podem equivaler? Vocês são uns ingratos! Não me chateiem! Será que se esqueceram (ou nem sequer se lembraram) das minhas bodas de prata de escritor? Pois é este ano que elas devem comemorar-se. Que culpa tenho eu de mandar o sapato ao ar cada vez que dou um chuto? Que culpa tenho eu, já agora, de não haver suado, pelo menos, a minha tristunha (ponha u, senhor compositor) juventude nas malsãs florestas da Amazónia? De esticalarica a arredondabarriga, a minha vida vai-se passando num Inferno de incompreensão. Toda a gente é homenageada por tudo e, em especial, por nada. Sobre mim fecha o silêncio as suas portas de maciça maldade e pesada estupidez! Mas não desisto assim às primeiras — estão prevenidos! — da festa de homenagem a que de há muito tenho jus! Nem que seja uma festinha para discreto futebolista de salão. Ah! E hei-de querer os bombeiros presentes, de capacete e botões reluzentes; e hei-de querer membros bem-falantes, colegas escritores enquadrados por estudantes; e hei-de querer delegações, com seus típicos estandartes, de várias partes e artes. Prometem fazer isso por mim? Juram reparar a minha glória de escritor? Eu ficaria tão contente… Se não lhes dei tardes de glória, fiz passar muitos de vocês à história. E não será mais importante franquear as balizas da história? Daqui a cem anos, quando já nem o Pelé for lembrado, a não ser, talvez, como marca de café ou calçado, a minha obra estará a ser objecto de novas interpretações redentoras, graças, muito provavelmente, a bolsas especialmente concedidas para esse fim-recomeço. Pacíficos norte-americanos invadirão Lisboa. Até japoneses, quem sabe? Hão-de querer saber onde desfiz os meus nós de gravata, onde travei conhecimento com o feijão frade e os joaquinzinhos, onde arrolhei os primeiros amorios, por que buates tresnoitei as minhas metafísicas azias. Vai ser um trabalho dos diabos! Mas, hoje, filhos, quero a minha festa de homenagem! Há vinte e cinco anos que me esgoto publicamente por vossa causa. Não me venham driblar! Meu nome é Alexandre![1]

 

[1] Alexandre O’Neill, “E a minha festa de homenagem?”, in “Chuva de Telhado”, a crónica de Alexandre O’Neill, Lisboa, A Capital, 25 de Setembro de 1973, p. 20.

 

 

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